Parece roteiro de filme: uma mulher sem identidade mora por 50 anos
em um hospital que, de repente, é fechado. Ela fica sem teto e está
prestes a ser levada para um abrigo, mas é adotada por uma das
funcionárias do hospital que, embora tenha perdido o emprego
inesperadamente e esteja sem dinheiro, teve o coração tocado pela
situação da idosa.
A história é real e aconteceu há dois anos, em Araraquara (SP). Só veio à tona agora, porque as personagens passam por algumas dificuldades financeiras. Quem conta este enredo é a cuidadora Glaucia Andressa Santos Gomes, de 29 anos. Ela conheceu Cotinha quando conseguiu um emprego de copeira no hospital Beneficência Portuguesa, em 2010, a adotou seis anos depois. “Vou cuidar dela o resto da vida”, contou.
A história é real e aconteceu há dois anos, em Araraquara (SP). Só veio à tona agora, porque as personagens passam por algumas dificuldades financeiras. Quem conta este enredo é a cuidadora Glaucia Andressa Santos Gomes, de 29 anos. Ela conheceu Cotinha quando conseguiu um emprego de copeira no hospital Beneficência Portuguesa, em 2010, a adotou seis anos depois. “Vou cuidar dela o resto da vida”, contou.
“Eu
vi aquela senhora limpando mesas e achei que fosse mais uma
funcionária”, contou Glaucia. Mais tarde ela descobriu que Cotinha, ou
Cota, como prefere chamá-la, morava há muito tempo no hospital.
Cotinha
vem de Cota, apelido dado antigamente às mulheres de nome Maria.
Ninguém sabe qual o nome verdadeiro da mulher, nem sua idade, nem mesmo
quando ela chegou ao hospital.
O
que contam é que ela chegou ao hospital ainda criança, junto com o
irmãozinho que tinha uns 4 anos, vítimas de um atropelamento por
caminhão. O irmão teria chegado morto e ela totalmente enfaixada, apenas
com os olhos aparecendo.
“O
pessoal fala que foi um acidente perto do [bairro] Quitandinha. Falam
que quando ocorreu o acidente ali ainda não tinha o pontilhão que tem
hoje. Como o pontilhão tem em torno de 50 anos, a gente acredita que ela
tem entre 62 e 65 anos”, disse Glaucia. “Dizem ainda que ela ficou seis
anos enfaixada, internada no hospital, período que teria sofrido muitas
dores”, completou.
A origem de
Cotinha, as circunstâncias como ela chegou ao hospital e o porquê de ter
morado tanto tempo lá são desconhecidas. As poucas informações que
existem sobre ela foram passadas boca a boca por funcionários, sem ter
como comprovar sua veracidade.
Ao
longo dos anos, muitas pessoas trabalharam no hospital e todos
conheceram a história de Cotinha lá. Acreditam que as freiras que faziam
o atendimento do hospital na época que ela chegou se sensibilizaram com
a sua situação e, como nunca ninguém a procurou, passaram a cuidar
dela.
“Contam
que ela trabalhava ajudando as irmãs, principalmente uma que se chamava
Tereza. Dizem até que dormiam no mesmo quarto”, afirmou Glaucia.
Glaucia e Cotinha
Mais
tarde, o local foi privatizado, as freiras foram embora e Cotinha
ficou. Por muito tempo ela morou em um quarto ao lado da lavanderia,
onde trabalhava passando e dobrando roupas. Depois os funcionários
pediram para que ela fosse transferida, devido aos seus problemas
respiratórios que eram agravados pela umidade da lavanderia. Ela, então,
foi para a cozinha, onde limpava mesas e guardava utensílios. Foi lá
que Glaucia a conheceu. “Eu vi aquela senhora limpando mesas e achei que
fosse mais uma funcionária”.
Além
de Glaucia, outros funcionários se importavam e cuidavam de Cotinha.
Alguns a levavam para passar o fim de semana em casa. Também saiam com
ela para tomar um sorvete ou comprar roupas. Consta que houve tentativa
de tirar uma documentação para ela, mas não conseguiram na época.
Em
2016, com o fechamento inesperado do hospital, cerca de 300
funcionários foram para a rua e a situação de Cotinha foi denunciada. A
polícia levou a idosa para uma casa que abriga mulheres vítimas de
violência. Preocupada, Glaucia procurou as autoridades e antigos chefes
do hospital para descobrir o seu paradeiro.
Hoje Cotinha é uma senhora idosa. Visivelmente tem alguma deficiência mental e não fala, mas tem boa interação com as pessoas.
Quando
conheceu Cotinha, Glaucia não podia imaginar que seu destino seria
definitivamente ligado ao dela. A cuidadora levou a idosa para sua casa,
colocou-a no quarto da filha e passou a tomar conta dela.
“Quando
o hospital fechou, eu entrei em desespero e falei: ‘não posso abandonar
a Cota. Se faço isso agora, ela vai ficar ao Deus dará. Não vai ter
alguém para cuidar dela. Eu fui mais na emoção, não pensei no dia de
amanhã. Eu pensei que ia pegar, ela ia ficar comigo um tempo e depois a
gente ia voltar para Beneficência. Ela ia voltar para o cantinho dela,
eu ia voltar a trabalhar”, contou Glaucia.
Não
foi assim que aconteceu. O hospital fechou definitivamente e Glaucia
conseguiu a guarda de Cotinha. Agora, ela tenta tirar documentos para a
mulher que tem apenas uma certidão na qual recebeu o nome de “Maria de
Tal” e tem origem desconhecida.
Glaucia
acolheu Cotinha em sua casa, que é alugada. A família não conta com
muitos recursos. O marido trabalha como mensageiro e Glaucia conseguiu
sobreviver por pouco tempo com o pouco que recebeu do hospital e hoje
trabalha como cuidadora em uma casa de repouso.
Mas
nenhuma dificuldade financeira destruiu a ligação entre as duas
mulheres. Cotinha foi acomodada no quarto da filhinha de Glaucia,
Emilly, de 3 anos, que passou a dormir no quarto dos pais. A rotina da
família mudou. As duas passaram a ir juntas para todos os lugares,
inclusive para o trabalho de Glaucia.
A
rotina de Cotinha é simples. Na maior parte do tempo, ela fica vendo
TV. A idosa caminha com alguma dificuldade – provavelmente uma sequela
do acidente – , mas é bastante independente. Só exige cuidados especiais
na alimentação, que tem que ser pastosa porque ela não come sólidos.
Fonte: G1
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